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Há três anos respiro o acidente, diz irmão de vítima da TAM

Jornalista relata que parentes dos 199 mortos da tragédia de 2007 mantêm contato e se tornaram uma família

Lecticia Maggi, iG São Paulo | 16/07/2010 07:00

Foto: ARQUIVO PESSOAL

Roberto Gomes veste camiseta com a foto do irmão: “o luto passou, a luta por Justiça, não”

No início de 2007, o jornalista Roberto Corrêa Gomes, de 54 anos, era conhecido como o dono do jornal de bairro Folha 3, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Eventualmente, participava de festas na região ou dava entrevista para alguma TV local. Desde 17 de julho do mesmo ano, no entanto, passou a ser tratado, principalmente, como “parente de vítima”.

Roberto é irmão do empresário Mário Lopes Corrêa Gomes, de 49 anos, um dos 199 mortos no acidente com o Airbus A320 da TAM. O voo 3054 partiu do aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, e, sem conseguir pousar no Aeroporto de Congonhas, chocou-se contra um hangar da própria companhia aérea.

Por ser jornalista, Roberto conta que, sem querer, logo após o acidente, passou a fazer uma ponte entre a imprensa e os familiares das vítimas, bastante fragilizados e sem saber como lidar com o assédio. Em pouco tempo, tornou-se o assessor oficial – e voluntário – da Associação de Familiares e Amigos de Vítimas do Voo TAM (Afavitam). Desde então, diz que “dorme e respira o acidente”.

Pela determinação em saber o que houve, virou jornalista de pauta única: “Minha pauta nos últimos três anos é o acidente aéreo. Uma pauta pessoal e profissional”, afirma, acrescentando que, como a dele, a vida da maioria dos familiares mudou radicalmente. “Muitos abandonaram as atividades que exerciam e tentaram partir para outras.” Até hoje, diz que a palavra que define melhor como ainda se sente é “estupefato”.

A última viagem

Dias antes de embarcar no voo 3054, Roberto conta que Mário fez um almoço para os seis irmãos, em que anunciou os planos de mudança para São Paulo. Acostumado a viajar de uma a duas vezes por semana por causa dos negócios de sua empresa de publicidade, Mário andava com medo de perder reuniões e contratos por conta do “apagão aéreo”. Achava que seria melhor ter uma residência fixa na capital paulista, e a última viagem que fez tinha como objetivo escolher a futura casa.

Roberto lembra que na noite de 17 de julho trabalhava, com a TV ligada, no escritório montado em sua casa. Ouvia sobre os jogos Pan Americanos quando a programação foi interrompida para mostrar um avião em chamas. Com a informação de que a aeronave havia partido de Porto Alegre e, sabendo das viagens constantes do irmão, seguiu para o aeroporto. No caminho, tentava desesperadamente ligar para Mário e era reconfortado pela caixa postal do celular dele. “Pensei que ainda estava voando.” Ao mesmo tempo, torcia para que algum incidente o houvesse impedido de embarcar. “Ele podia ter se atrasado, sido realocado, desistido de voar, preferido ir de ônibus, navio, sei lá. Você pensa em tudo”, afirma.

Foto: ARQUIVO PESSOAL

Com receio do caos aéreo, empresário Mário Gomes queria se mudar para São Paulo

A confirmação de que o irmão estava no voo 3054 veio ainda no trajeto, por meio de funcionários da empresa dele. E o desespero também. Por 15 dias, Roberto viveu a angústia de ir diariamente ao Instituto Médico Legal (IML) em busca de fragmentos do irmão. “Virei especialista em identificação de corpos carbonizados por arcada dentária e DNA. Depois, em legislação aérea e mecânica de aviões”, diz.

Para ele e para os parentes das outras 199 vítimas, era essencial ter algo que pudessem velar e enterrar. “Somos humanos, precisamos desses ritos de despedida e fechamento”, explica. Quatro pessoas, porém, não foram identificadas. “Na verdade, nada restou delas. Desintegraram-se”, diz.

Unidos pela dor, os familiares se juntaram na busca por respostas e criaram a Afavitam em outubro do mesmo ano. Até hoje, segundo ele, tiveram 29 encontros presenciais, com pessoas de 17 Estados, e outras dezenas por meio da internet. “Criamos uma grande família. Nossos familiares não conviveram, mas morreram juntos.”

Investigação

Quando se refere à investigação, Roberto fala firme, convicto, e indigna-se: “O relatório da Polícia Federal de setembro de 2009 concluiu que os pilotos foram os culpados. Só faltou acusar os passageiros.” Para ele, prova indiscutível de que os comandantes não tiveram culpa na tragédia é a gravação contida na caixa preta da conversa entre eles na cabine, instantes antes da colisão. “Um deles diz: ‘desacelera, desacelera’. E o outro: ‘não dá, não dá’. Isso não é coisa de quem está errando, é a prova de que estavam tentando fazer algo e não conseguiram”, afirma.

O jornalista recusa-se, inclusive, a tratar a morte do irmão como acidente. “Foi uma tragédia anunciada. As 199 pessoas foram assassinadas pela ganância e negligência da TAM, Anac e Infraero”, critica. Há responsáveis, segundo ele, e o que espera é que sejam punidos “de maneira exemplar”. “Espero que a Justiça brasileira dê um exemplo de transparência e obediência às leis.”

O que ficou

Toda a certeza demonstrada ao falar sobre as investigações e o trabalho na Afavitam dá lugar à emoção quando se refere ao irmão e à dúvida quando fala de si próprio. “Uma coisa é perder alguém no fórum íntimo, a outra é no horário nobre. Viver um luto em nível nacional. Você não tem tempo de assimilar e passar pelos processos de aceitação, já é lançado na mídia e em processos investigatórios”, explica.

O jornalista afirma que, assim que ocorreu o acidente, viu-se obrigado “a colocar o lado prático em ação” e a ajudar os outros familiares. Um ano depois, porém, não se reconhecia mais: “Fiquei tão envolvido que não sabia mais se eu era o Roberto do Folha 3, o irmão do Mário, o assessor da Afavitam, o jornalista. Então, fui para a terapia.”

Com um ano da morte de Mário, ele também fez questão de refazer o último trajeto do irmão. “Peguei um voo em Porto Alegre, sentei na poltrona 29 D, a mesma que o Mário estava, e desci em Congonhas sob chuva. Era algo que me incomodava. Quando cheguei, falei: ‘Completei sua viagem’.”

Atualmente, além da Afavitam, Roberto dedica-se a criar o filho de 14 anos e ao trabalho em uma editora. Quando questionado sobre o que espera da própria vida nos próximos anos, diz que não faz muitos planos. “O luto passou, mas continuamos na luta. Temos muitos anos pela frente para que seja feita Justiça e mais um absurdo não seja enterrado.”

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